quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Artigo

Olá irmãos... bom entrar nesta sala... neste, quem sabe, oikos.
Li este artigo e achei interessante e pertinente as nossas conversas.
Deus abençoe.
Pr Ramon

Mentoria - Espiritualidade e Religião.Ricardo Gondim.
Querido Diego,
Concordo, temos que fazer uma clara distinção entre o que se entende por espiritualidade e religiosidade. Coincidentemente, conduzirei uma conferência em setembro sobre a "espiritualidade para além da religião".Espiritualidade seria a promoção da justiça, da solidariedade e das boas maneiras; o exercício de transcender além da sobrevivência biológica. Ou, em outras palavras, de nos humanizar.
A religião precisa se institucionalizar para ter continuidade histórica. E esse processo já se mostrou perigoso. Desde os profetas bíblicos, passando por Jesus de Nazaré, a Inquisição e o Fundamentalismo moderno, a religião esfolou, empalou, queimou e dizimou milhões. O rastro religioso salpicou a história de sangue.
Acontece que você e eu somos pastores de comunidades religiosas, com registro legal, com nome na porta e com uma estrutura teológica e hierárquica. O que fazer para não deixar que a religiosidade sufoque o processo de humanização?
Eis algumas sugestões:
1. Não perpetue qualquer tradição quando não souber explicar porque ela existe. Muitas instituições se engessam porque não arriscam sair da bitola do tradicionalismo. Uma pergunta deve ser feita com todos os formalismos religiosos: “Por quê fazemos, pregamos, aceitamos e repetimos isso?”. Se não houver uma resposta satisfatória, descarte, seja lá o que for. Conheço igrejas que insistem na música acompanhada com órgãos de fole e rejeitam a guitarra elétrica. Tolamente acreditam que “no passado não havia instrumentos elétricos e a igreja deu certo, para quê, então, trazer ‘novidade’”.
2. Não aceite que se desenvolva um culto à personalidade. Abra mão de títulos, de honrarias, de rasga-sedas. Não se proclame ungido, não faça propaganda de sua capacidade. Cuidado para não alterar a voz quando for orar. Seja simples como as pombas.
3. Não tolere linguagem piegas ao seu redor. Não há nada mais nojento na religião do que o artificialismo. Confesso, Diego: não agüento escutar ou ler os discursos empolados dos puros. Eles falam como se acabassem de chegar do “País das Maravilhas de Alice”. Pretendem mostrar como são vitoriosos, como os milagres se repetem em suas vidas, como os anjos os visitam, como atinam sobre os mistérios da divindade, como sabem elencar as exigências da lei e como são ousados com Deus. Mas dá vontade de perguntar: “Vocês nunca tiveram cólica intestinal? Suam debaixo do braço?”.
4. Não queira converter as pessoas à sua doutrina. Você e eu não concordamos em vários detalhes de nossa fé. Se discutirmos sobre qualquer tema de nossa teologia, vamos nos contradizer. Ora, então para quê converter as pessoas à nossa “verdade”?. Além de impossível, nem seria bom homogeneizar o pensamento de nossa comunidade. Queiramos converter mulheres e homens à uma qualidade de vida com um patamar existencial mais nobre. O rigor conceitual deve ser de menor importância. Desejemos que sejam buriladas à imagem de quem mais admiramos, Jesus Cristo.
A espiritualidade que buscamos não precisa da camisa-de-força da intolerância religiosa. Lembre-se que Jesus elogiou a fé de um centurião romano pagão, de uma mulher cananéia, de um ladrão que nada sabia sobre os conteúdos de sua doutrina. Entretanto, todos revelaram grandeza existencial e esta, precisamente esta grandeza, deve ser o seu alvo.
Espiritualidade também significa a encarnação de verdades que antes só existiam em tese. Até pouco tempo eu me preocupava em fazer afirmações “verdadeiras”, sem me indagar com a sua plausibilidade concreta na vida. Mas será que deve ser esse o nosso caminho?
Quando jovem, li um best-seller sobre uma gaivota que excedeu sobre as demais. Contei a um professor do ginásio que estava entusiasmado com o livro. Sua reação me deixou sem jeito. Meu mestre me advertiu que o livro era bobagem burguesa, escrito para leitores ingênuos como eu. “Ricardo”, disse ele, “para uma verdade ser verdadeira, é necessário que ela se torne relevante em toda e qualquer circunstância; esse livro não serve para os pobres, para os exilados e para os presos políticos”.
Quando orar, Diego, pergunte-se se aquela prece pode ser feita nas favelas da Índia, nos corredores de uma unidade de tratamento intensivo do hospital de indigentes, na casa do tetraplégico. Pergunte-se se o seu sermão é valido para a mãe que acabou de enterrar o filho e para o doutor em filosofia. A verdade tem que encarnar, inclusive em épocas distintas. "O que foi dito pelos meus avós tem como ser contextualizado pelos meus netos?".
Sim, fujamos da religiosidade. Ela é perniciosa, irrelevante e geradora de intolerância. Busquemos a espiritualidade solidária e justa. Só assim viveremos com graça, na dispensação do Espírito.
Abraços,
RicardoSoli Deo Gloria.
Publicado em http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=104&sg=0&id=1966

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