quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Reflexões sobre a Fé Cristã na Contemporaneidade

Como professor de Antigo e Novo Testamento no curso de Introdução Bíblica na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, grandes polêmicas e discussões têm surgido quando os alunos, a partir de um diálogo aberto, crítico e desafiador, tem percebido como é grande o estrago que a mensagem cristã contemporânea tem sofrido por causa de um problema seríssimo: a separação feita entre História de Israel e Escritura Bíblica, ou seja, separação entre História e Revelação.

Quando separamos o conteúdo da mensagem cristã nas Escrituras do ambiente e realidade na qual elas foram reveladas, testemunhadas, vividas e escritas, criamos uma série de interpretações alegóricas e, como quase em todos os casos, acabamos por colocar palavras, conceitos e "verdades" nossas na boca de Deus, fazendo com que as Escrituras se tornem pretexto para legitimar nossas próprias convicções espiritualizadas e ideologizadas com o objetivo de alcançar nossos fins desejados.

Assim, a importância da exegese e da hermenêutica têm sido relegada a um segundo plano e, o que é pior, tem-se promovido e acelerado o processo de alienação espiritual que é desenvolvido através da ruptura do essencial diálogo entre Revelação e realidade do mundo ( Brasil ) em que vivemos. Diálogo este proposto por Deus a Adão no Éden, a Abraão na Babilônia, a Moisés no Egito, aos profetas anteriores e posteriores nas regiões de Israel ( norte ) e Judá ( sul ), bem como a Jesus Cristo na pedagogia desenvolvida com seus discípulos, a pedagogia do Reino de Deus, que nasceu e se desenvolveu no solo palestino do primeiro século.

Existe uma distinção entre forma e conteúdo na fé cristã. Toda forma é relativa e muda de acordo com a época e as circunstâncias, porém, o conteúdo é imutável ao longo da História.

Em síntese, o conteúdo do cristianismo é caracterizado pela salvação pela fé em Cristo Jesus, que nos conduz à comunhão com o Pai, chamando-nos e capacitando-nos para uma comunhão comunitária, de serviço ao próximo, em obediência à Palavra e pela força do Espírito Santo.

É bem verdade que a forma de expressar este conteúdo varia ao longo da História. Ele já foi vivido sob a perseguição dos patriarcas, juízes, reis, imperadores, ditadores, presidentes eleitos, inclusive, atualmente, pelos nossos irmãos indianos. A evangelização ocorreu de forma pessoal, em massa, em catacumbas, casas, mosteiros, escolas, auditórios, embaixo de árvores, etc.

Deus também age na História por intermédio de diversas correntes teológicas, filhas de seu tempo e contexto histórico: os Pais do Deserto no início da igreja, a Reforma e seus desdobramentos ( fundamentalismo, pentecostalismo, movimentos de santidade e justiça social, despertamento missionário, missão integral, igrejas nas casas, etc). É um equívoco achar que a forma é mais importante que o conteúdo e estipular que Deus só pode agir no mundo por determinada via preestabelecida. Porém, é importante lembrar que Deus interage com o ser humano na história, donde a teologia nada mais é que a ciência ou a forma como procuramos interpretar os conteúdos da Revelação para nosso tempo, em virtude dos anseios espirituais de nossa época, nosso povo, nossa geração.

A fé cristã desenvolveu-se nas igrejas católica, ortodoxa e reformada em diferentes períodos da história.

Atualmente, a maior preocupação da igreja evangélica brasileira e de sua liderança é enfatizar mais a forma e estratégia do que propriamente o conteúdo. Como se diz por ai: "Qual é a visão de sua igreja ?"

Não vejo mais a preocupação de se saber qual o conteúdo, pois o que interessa é a forma, por meio da qual se estabelece as comparações e as competições baseadas naquilo que é relativo: a visão ou o modelo para se expressar a fé.

Todas as vezes que grupos e pessoas priorizam a forma, afirmando categoricamente que Deus só pode agir dentro de determinado padrão, cria-se o ambiente para a divisão.

O fato é que a igreja não se estabelece no mundo através de forma, estratégia ou visão, mas pela ação do Espírito Santo na vida dos cristãos, que testemunham da santidade, obediência, humildade e serviço, bem como do amor de uns pelos outros. Esse é o conteúdo básico para se viver a fé cristã, independente da forma.

Assim, temos corrido um crescente risco de que nossas lideranças humanas imprimam muito mais o seu próprio caráter do que o de Cristo na vida da comunidade ( igreja ), inclusive, valendo-se de interpretações descontextualizadas das Escrituras às vistas de um povo que sofre e padece por falta de conhecimento de Deus, das Escrituras e de sua própria realidade na concretude do mundo.

Fala-se muito sobre líderes e lideranças; há inúmeros cursos, retiros, livros com fortíssima ênfase secular para formar ou formatar homens e mulheres empreendedores, capazes de motivar pessoas e fazer as coisas acontecerem.

O resultado de tudo isso é uma geração de pastores urbanos que estão cada vez mais parecidos com executivos bem sucedidos. Sabem muito bem usar a mídia, sendo bons marqueteiros e excelentes gerentes administrativos, fazendo com que a igreja se pareça mais com uma empresa em busca de resultados do que uma comunidade que serve à sua geração.

Valem-se da empreendedora lógica da cultura capitalista de nosso tempo, a ênfase de se maximizar resultados minimizando-se custos. Daí a lógica de se falar atualmente em “ministério leigo” ao invés do bom e velho bíblico “sacerdócio universal dos crentes” que cumprem com seus dons e talentos dados pelo Espírito Santo para atender a comunidade e ser sal e luz do mundo na realidade concreta do mundo. Afinal, os meios “dízimos” ainda se valem para os mesmos “fins” da época do profeta Malaquias. Infelizmente, Deus ainda continua sendo roubado e extorquido !!

É espantoso notar que uma boa exegese feita, quer a partir do hebraico ou do grego, nos deixa evidente que não é a palavra "líder" que consta na Bíblia, mas a palavra "servo", a mais exata para definir aqueles que são chamados pelo Senhor para exercer dons no contexto da comunidade ( igreja ).

As Escrituras nos mostram Deus chamando pessoas que não sabem falar, não passam de crianças, de lábios impuros, nascidos como que fora do tempo; homens e mulheres inadequados, incapacitados e fracos. Deus nos usa dessa forma, para que toda glória seja dada a ele e não a homens e modelos.

É tempo de se repensar nossa postura frente à necessidade de um comprometido exame das Escrituras, bem como cessar a estéril discussão acerca da forma e procurar resgatar o verdadeiro conteúdo da fé cristã; de Cristo, por Cristo e com Cristo na realidade concreta do mundo, da vida.

É tempo de sermos mais servos e menos líderes; mais santos e menos heróis, mais humanos e menos máquinas. Esse é o testemunho que vai permanecer na História.

Concluo com uma máxima creditada a São Francisco de Assis ( século XII ): “Prega o Evangelho. Se for preciso, use palavras.”

Márcio Roldan de Araujo

Soli Deo Gloria.

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